Outro dia, analisando o painel de uso do Cursor para entender para onde meus tokens estavam indo, parei em duas requisições que tinham acabado de rodar. O instinto é olhar a contagem de tokens e assumir que a maior foi a mais cara. Ao comparar as duas, não foi isso que encontrei.
As duas tinham praticamente o mesmo tamanho: uma com 1,34 milhão de tokens, a outra com 1,40 milhão. Volume quase idêntico. A primeira custou US$ 1,13. A segunda custou US$ 2,96, quase o triplo.
Se o número de tokens fosse o que define o custo, duas requisições do mesmo tamanho custariam quase o mesmo. Não foi o que aconteceu. A intuição de que mais tokens significam mais dinheiro é, na melhor das hipóteses, incompleta, e entender o que de fato define o custo muda a forma como você lê qualquer fatura de LLM.
Por que o total de tokens engana
O instinto é olhar para o Total, o número que resume a requisição. Mas o Total mede a quantidade de texto que passou pela janela de contexto, não o custo. As duas coisas não andam juntas.
O custo não é uma função simples do total de tokens. Ele é uma soma ponderada por categoria: input fresco, cache write, cache read e output.
Quatro categorias, quatro preços
O detalhamento de uma requisição separa o uso em quatro categorias, cada uma com preço próprio. Usando os valores do Opus, por milhão de tokens:
| Categoria | Preço por milhão | O que é |
|---|---|---|
| Cache Read | ~US$ 0,50 | contexto já cacheado, reaproveitado |
| Input (fresco) | ~US$ 5 | texto novo entrando no contexto |
| Cache Write | ~US$ 6,25 | gravar contexto no cache pela primeira vez |
| Output | ~US$ 25 | tudo que o modelo gera: código, texto e raciocínio |
A distância entre as pontas é o ponto central. Output custa cinquenta vezes o Cache Read. O mesmo token tem custo radicalmente diferente dependendo da categoria em que ele entra. Prever o custo de uma requisição exige conhecer a distribuição entre essas categorias, não o total.
Como o cache de prefixo funciona
O modelo é stateless. Ele não retém nada entre uma chamada e outra. A cada nova mensagem, a aplicação reenvia o contexto inteiro desde o início: instruções de sistema, rules, definições de tools, histórico da conversa e arquivos já lidos. Tudo, a cada chamada.
Reprocessar todo esse conteúdo do zero a cada interação seria caro demais. A solução é o cache de prefixo, e a palavra prefixo é literal. O cache funciona do início do contexto para a frente, enquanto o conteúdo for idêntico ao da chamada anterior.
Na primeira chamada de uma sessão não existe nada cacheado. Todo o contexto é gravado pela primeira vez, e gravar é caro (é o Cache Write). Essa é a razão de a primeira requisição de qualquer sessão ser a mais cara por token: ela paga para construir o cache. A partir da segunda chamada, esse mesmo início é reaproveitado como Cache Read, cerca de dez vezes mais barato. É por isso que uma sessão longa e contínua tende a sair barata: o custo de montar o cache é pago uma vez e diluído por todas as chamadas seguintes.
O que acontece quando algo muda no meio
O detalhe que mais pega na prática: o cache vale apenas até o primeiro ponto em que o contexto mudou. Como ele é casado do início para a frente, qualquer alteração numa parte inicial invalida tudo o que vem depois dela.
Um exemplo concreto. Suas rules ficam no começo do contexto, logo após as instruções de sistema. Se você editar uma rule no meio da sessão, tudo o que vem depois dela (as tools, o histórico inteiro, os arquivos) deixa de bater com o cache anterior e precisa ser regravado, de novo a preço de Cache Write. Uma mudança de poucas linhas, por estar no início, força reprocessar centenas de milhares de tokens. A consequência prática é direta: o que é estável deve ficar na frente do contexto, e o que muda com frequência, mais para o fim.
A mesma coisa acontece quando o Cursor resume o contexto ao atingir o limite da janela. A sumarização reescreve o histórico, e reescrever é mudar. O cache se perde a partir da parte reescrita.
O cache também expira com o tempo
Mesmo sem você mudar nada, o cache não dura para sempre. No caso da Anthropic, o cache padrão expira após cerca de cinco minutos de inatividade, e esse contador reinicia a cada novo acesso. Na prática, enquanto você trabalha de forma contínua, com chamadas separadas por menos de cinco minutos, o cache se mantém quente por tempo indeterminado. Se você para por mais que isso, sai para uma reunião, almoça, volta no dia seguinte, o cache esfria, e a próxima chamada volta a ser um Cache Write do zero, como um novo cold start. Há também uma opção de janela mais longa, de uma hora, a um custo de gravação maior.
O mecanismo, resumido: o começo estável e contínuo é barato. Mexer no início do contexto, ou deixar a sessão esfriar, é o que custa.
O que os quatro campos revelam
Com o mecanismo claro, dá para ler minhas requisições pelos quatro campos, em vez do Total.
| Requisição | Total | Cache Read | Cache Write | Input | Output | Custo | Custo/milhão |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | 1.343.927 | 1.334.715 | 5.613 | 10 | 3.589 | US$ 1,13 | ~US$ 0,84 |
| B | 1.399.381 | 912.025 | 302.010 | 169.871 | 15.475 | US$ 2,96 | ~US$ 2,12 |
A requisição A é o cenário ideal. 99% do uso foi Cache Read: ela operava no meio de uma sessão quente, reaproveitando o cache construído pelas anteriores. Quase nada de Input fresco, pouco Output. Saiu a uns US$ 0,84 por milhão de tokens, e essa é a cara de uma requisição eficiente.
A requisição B é a cara. Tem volume parecido com o da A, mas custou quase o triplo. A explicação está em dois campos: 302 mil de Cache Write e 170 mil de Input fresco, dentro de uma única requisição. Esse é o churn. Algo mudou no início do contexto durante a sessão, uma rule editada ou uma sumarização disparada pelo Cursor, e o cache foi invalidado a partir daquele ponto. O modelo regravou grande parte do contexto a preço de Write e ainda processou arquivos novos como Input. Três categorias caras concentradas numa requisição só.
A e B têm praticamente o mesmo volume de tokens, 1,34 milhão contra 1,40 milhão, e quase o triplo de diferença no custo. A variável não foi o tamanho. Foi a composição.
Conclusão: meça pelos quatro campos
O Total não é uma métrica útil para prever ou diagnosticar custo. Os quatro campos são.
Quando uma requisição sai cara, o caminho é abrir o detalhamento e identificar a categoria responsável:
Cache Write elevado indica cold start, ou alteração no início do contexto.
Output elevado indica geração excessiva, com frequência código regerado depois de um erro.
Input fresco elevado indica exploração de muitos arquivos a partir do zero.
Cada categoria tem uma causa e uma mitigação distintas. O Total agrega tudo num único número e oculta justamente a informação necessária para agir.
No próximo post trato das mitigações: as duas alavancas que de fato reduzem essa conta, maximizar o Cache Read e reduzir o Output desperdiçado.
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